domingo, 11 de agosto de 2013

a arte de almandrade


PENSANDO A ARTE A PARTIR DA MINHA EXPERIÊNCIA

O homem se protege na linguagem, mas na arte a linguagem é o caminho que leva ao desconhecido, onde o artista pensa imagens para habitar a intimidade do mundo.

Contemplar uma obra de arte é compartilhar de um conhecimento, é apropria-se de um conjunto de ideias que pertence a um código secreto, desvelado pelo pensamento do olhar. Para responder às suas provocações, estamos sempre imaginando realidades e referências, que não constituem leituras definitivas. Cada espectador faz a leitura que lhe convém, conforme suas experiências, seu repertório e seus interesses culturais, resultando em definições que se aproximam mais ou menos da natureza da obra.

Uma obra de arte nunca está definitivamente concluída, está sempre reivindicando novas leituras, em decorrência das transformações do pensamento. Conceitos vão sendo acrescentados ao longo do tempo, como se o ato de olhar projetasse no objeto de arte novos saberes e novas dúvidas

Desenho

Preencher a superfície do papel até tangenciar a profundidade da desordem, inscrever e re-significar o vazio. Diagramar o espaço e perseguir um sentido à distância. A história do desenho e a emoção. Tratado de semiótica que gira em torno de si mesmo, objetivando um estado de tensão. O olho ri, religiosamente, da sensualidade matemática. Escrituras do silêncio, não falam, mostram, não, nada. Espelhos paralelos a repetir imagens diferentes. Enigmas além da perspectiva. Mapas de regiões geograficamente insituáveis. Miragem, abismo, abstração da ausência.

Escultura, Objeto e Instalação

As imagens da leveza e do equilíbrio se inventam, dialeticamente, no processo do fazer e no desafio da mão e do pensar ao lidar com a matéria, o espaço, a cor e os conceitos. A sensação de leveza revela o esforço de construir com a metáfora do vôo a poesia do imprevisível, a passagem da desordem para a ordem, relacionando o raciocínio e o lúdico.

Discretas contraditórias, as partes se interagem num repouso momentâneo (e duradouro). A materia revestida pela cor resulta em outra realidade, marcada pele tensão, pelo equilibrio, pelo ritmo e pela sugestão de espaço.

Pintura

A pintura passou a ser uma forma de restauração da tela. Atrás da superfície branca, onde a mão e o raciocínio vão agir, habitam muitas sombras, formando uma paisagem obscura, que escondem alguns conflitos da visualidade. A tela é como um velho quadro negro, que não é mais negro, é cinza. O giz e o atrito do apagador deixaram nele cicatrizes de inúmeras escrituras. Assim é a tela, um território com rastros de muitas inscrições. Pintar é enfrentar os fantasmas da pintura, é escavar a densidade de uma superfície que se apresenta branca, na procura de referências para construir um lugar, mesmo que seja um lugar inacabado, para estimular as reflexões do olhar. A pintura renasce de si, deixando aparecer seus sonhos e rugas, revelando dúvidas e imperfeições, dando forma ao invisível. A cor e o traço vibram e se interrogam como atributos de um suporte que abriga a encenação de uma pintura.
       Almandrade




ESSÊNCIAS DO VISÍVEL

Como falar da arte sem por em causa a relação improvisada do ver e do dizer? A minha fala não exclui a possibilidade de significados que possam ser acrescentados à obra, aliás, estas imagens freqüentemente enigmáticas são produzidas pelos artistas para o exercício da imaginação, dentro de um sistema cultural com experiências individuais díspares. Suas leituras se modificam nos diversos contextos. A exemplo das pretensas considerações teóricas que venho a fazer sobre meu próprio trabalho não encerram nenhuma leitura definitiva. Um acessório a mais que contribui para o pensamento discursivo e o relacionamento do espectador com objeto de arte.

As esculturas e objetos que ora apresento por uma vontade de interrogar e desafiar o olhar histórico, são construídas de planos de madeira pintados, vidro, borracha e encaixados ou articulados através de outros elemento como: elástico, dobradiça, fio de nylon, haste de alumínio, esponja, etc. Se apóiam na parede ou no chão, se relacionam com a arquitetura e uma noção de espaço construído ou se debruçam sobre seu formalismo como discurso frio que interroga o sensível, a razão , o problema do trabalho de arte. São peças meio tensas, estáticas, sujeitas a movimentos invisíveis ou apresentando um suspeito equilíbrio.

A cor com seu sentido de sensualidade, é um complemento da obra para quebrar a frieza e apresentar um clima frenético, embora depurado e asséptico. Superfícies monocromáticas, sutilezas de gestos e materiais, aparentemente submetidas a um cálculo, soluções formais, espaciais e cromáticas simples, sob uma disciplina de ensaio laboratorial, na procura da essência necessária para se formular reflexões sobre a atualidade da escultura, do objeto, (da arte). Nem sempre o raciocínio lógico determina a construção de uma peça, existe uma experiência empírica e subjetiva de lidar com os materiais, as cores e o vazio instigante que existe em torno da obra.

Cada peça resulta de uma solução especifica e individual, uma operação de equilíbrio / desequilíbrio físico e formal que é também da ordem da emoção. Variações no sistema construtivo, mas relacionadas entre si, pela singular engenharia de concepção e execução. Foram pensadas para interrogar a si mesmo, enquanto produtos de um saber delimitado e histórico que retém sonhos, memórias precisão e irracionalidades.

Almandrade