PENSANDO A ARTE A PARTIR DA MINHA EXPERIÊNCIA
O homem se protege na linguagem,
mas na arte a linguagem é o caminho que leva ao desconhecido, onde o
artista pensa imagens para habitar a intimidade do mundo.
Contemplar uma obra de arte é
compartilhar de um conhecimento, é apropria-se de um conjunto de
ideias que pertence a um código secreto, desvelado pelo pensamento
do olhar. Para responder às suas provocações, estamos sempre
imaginando realidades e referências, que não constituem leituras
definitivas. Cada espectador faz a leitura que lhe convém, conforme
suas experiências, seu repertório e seus interesses culturais,
resultando em definições que se aproximam mais ou menos da natureza
da obra.
Uma
obra de arte nunca está definitivamente concluída, está sempre
reivindicando novas leituras, em decorrência das transformações do
pensamento. Conceitos vão sendo acrescentados ao longo do tempo,
como se o ato de olhar projetasse no objeto de arte novos saberes e
novas dúvidas
Desenho
Preencher
a superfície do papel até tangenciar a profundidade da desordem,
inscrever e re-significar o vazio. Diagramar o espaço e perseguir um
sentido à distância. A história do desenho e a emoção. Tratado
de semiótica que gira em torno de si mesmo, objetivando um estado de
tensão. O olho ri, religiosamente, da sensualidade matemática.
Escrituras do silêncio, não falam, mostram, não, nada. Espelhos
paralelos a repetir imagens diferentes. Enigmas além da perspectiva.
Mapas de regiões geograficamente insituáveis. Miragem, abismo,
abstração da ausência.
Escultura, Objeto e Instalação
As imagens da leveza e do
equilíbrio se inventam, dialeticamente, no processo do fazer e no
desafio da mão e do pensar ao lidar com a matéria, o espaço, a cor
e os conceitos. A sensação de leveza revela o esforço de construir
com a metáfora do vôo a poesia do imprevisível, a passagem da
desordem para a ordem, relacionando o raciocínio e o lúdico.
Discretas
contraditórias, as partes se interagem num repouso momentâneo (e
duradouro). A materia revestida pela cor resulta em outra realidade,
marcada pele tensão, pelo equilibrio, pelo ritmo e pela sugestão de
espaço.
Pintura
A
pintura passou a ser uma forma de restauração da tela. Atrás da
superfície branca, onde a mão e o raciocínio vão agir, habitam
muitas sombras, formando uma paisagem obscura, que escondem alguns
conflitos da visualidade. A tela é como um velho quadro negro, que
não é mais negro, é cinza. O giz e o atrito do apagador deixaram
nele cicatrizes de inúmeras escrituras. Assim é a tela, um
território com rastros de muitas inscrições. Pintar é enfrentar
os fantasmas da pintura, é escavar a densidade de uma superfície
que se apresenta branca, na procura de referências para construir um
lugar, mesmo que seja um lugar inacabado, para estimular as reflexões
do olhar. A pintura renasce de si, deixando aparecer seus sonhos e
rugas, revelando dúvidas e imperfeições, dando forma ao invisível.
A cor e o traço vibram e se interrogam como atributos de um suporte
que abriga a encenação de uma pintura.
Almandrade
ESSÊNCIAS
DO VISÍVEL
Como falar
da arte sem por em causa a relação improvisada do ver e do dizer? A
minha fala não exclui a possibilidade de significados que possam ser
acrescentados à obra, aliás, estas imagens freqüentemente
enigmáticas são produzidas pelos artistas para o exercício da
imaginação, dentro de um sistema cultural com experiências
individuais díspares. Suas leituras se modificam nos diversos
contextos. A exemplo das pretensas considerações teóricas que
venho a fazer sobre meu próprio trabalho não encerram nenhuma
leitura definitiva. Um acessório a mais que contribui para o
pensamento discursivo e o relacionamento do espectador com objeto de
arte.
As
esculturas e objetos que ora apresento por uma vontade de interrogar
e desafiar o olhar histórico, são construídas de planos de madeira
pintados, vidro, borracha e encaixados ou articulados através de
outros elemento como: elástico, dobradiça, fio de nylon, haste de
alumínio, esponja, etc. Se apóiam na parede ou no chão, se
relacionam com a arquitetura e uma noção de espaço construído ou
se debruçam sobre seu formalismo como discurso frio que interroga o
sensível, a razão , o problema do trabalho de arte. São peças
meio tensas, estáticas, sujeitas a movimentos invisíveis ou
apresentando um suspeito equilíbrio.
A cor com
seu sentido de sensualidade, é um complemento da obra para quebrar a
frieza e apresentar um clima frenético, embora depurado e asséptico.
Superfícies monocromáticas, sutilezas de gestos e materiais,
aparentemente submetidas a um cálculo, soluções formais, espaciais
e cromáticas simples, sob uma disciplina de ensaio laboratorial, na
procura da essência necessária para se formular reflexões sobre a
atualidade da escultura, do objeto, (da arte). Nem sempre o
raciocínio lógico determina a construção de uma peça, existe uma
experiência empírica e subjetiva de lidar com os materiais, as
cores e o vazio instigante que existe em torno da obra.
Cada peça
resulta de uma solução especifica e individual, uma operação de
equilíbrio / desequilíbrio físico e formal que é também da ordem
da emoção. Variações no sistema construtivo, mas relacionadas
entre si, pela singular engenharia de concepção e execução. Foram
pensadas para interrogar a si mesmo, enquanto produtos de um saber
delimitado e histórico que retém sonhos, memórias precisão e
irracionalidades.
Almandrade
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